Conheça alvos do inquérito das fake news, usado por Moraes contra Mendonça


A decisão foi tomada após publicação de reportagem da revista Crusoé sobre um documento da Lava Jato no qual Marcelo Odebrecht teria feito menção ao próprio Dias Toffoli

Aberto há sete anos e meio por ato de ofício, o inquérito das fake news ganhou novo capítulo após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), incluir no rol de investigados o colega de Corte André Mendonça, com quem vive disputa interna na Corte Suprema. O despacho foi publicado nesta quinta-feira, 3.

O inquérito das fake news foi instaurado pelo ministro Dias Toffoli, sem o aval do Ministério Público. Toffoli era presidente do STF e indicou, ele mesmo, Moraes como o relator responsável pelo caso em março de 2019. O pretexto era investigar ataques a ministros e seus familiares.

A decisão foi tomada após publicação de reportagem da revista Crusoé sobre um documento da Lava Jato no qual Marcelo Odebrecht teria feito menção ao próprio Dias Toffoli.

Com o tempo, transformou-se em instrumento de investigação de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro que tentavam minar a autoridade do Supremo, até, finalmente, passar a ser usado por Moraes contra adversários pessoais.

Mendonça é apenas um da lista de acusados por crimes supostamente cometidos contra o próprio relator do inquérito. A relação tem até o Partido da Causa Operária (PCO), investigado após tornar públicas críticas aos ministros da Corte. Também aparecem os youtuber Allan do Santos e Bernardo Kuster, assim como a ex-ativista pelo direito das mulheres Sara Winter.

Moraes ordenou, em janeiro deste ano, a abertura de uma nova investigação sigilosa para apurar o vazamento de dados fiscais de magistrados da Corte e familiares por servidores públicos da Receita Federal, do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro).

Tomou essa decisão após reportagens revelarem a contratação do escritório da de sua mulher pelo Master e os negócios de Toffoli com a instituição financeira do banqueiro Daniel Vorcaro num resort no Paraná.

Além da condição de investigador, vítima e juiz ao mesmo tempo, o risco de abusos no âmbito do inquérito está associado à ampliação de seu escopo a cada novo investigado.

O exemplo mais recente foi a busca determinada contra o blogueiro Luís Pablo Conceição Almeida, que publicou sobre carro funcional do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) usado pelo ministro Flávio Dino em viagens ao Estado. O caso tramitou, inicialmente, com Cristiano Zanin, que encontrou paralelo com o inquérito das fake news e redistribuiu ao relator, Alexandre de Moraes.

No início da tramitação, os atos atípicos eram justificados pelos excessos e ameaças autoritárias de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. É o caso do ex-deputado federal Daniel Silveira, que foi preso por Moraes por gravar vídeo em que prega agressão e até o assassinato de membros do STF.

A nova frente de apuração

No novo caso contra André Mendonça, as acusações são de quebra da imparcialidade e favorecimento a políticos na relatoria das operações Sem Desconto e Compliance Zero. Moraes alega que Mendonça usurpou atribuições de órgãos de investigação e comprometeu a integridade da cadeia de custódia, o que teria prejudicado a produção de provas.

Atribui ainda condução irregular das tratativas de eventual colaboração premiada e direcionamento das apurações contra o próprio Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por motivos pessoais.

O ato de Moraes é uma resposta à divulgação de relatório da Polícia Federal que expôs sua relação e de sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, acusado de fraude de R$ 12 bilhões contra o sistema financeiro nacional.

Foi implicado ainda o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que trocou mensagens e falou por telefone com o banqueiro por meio de intermediário. O chefe do Ministério Público Federal disse que sentia saudades de Vorcaro e que torcia por ele. Também aceitou convite para degustação de uísque e charutos em Londres, à seu filho também compareceu.

Tudo pago pelo Banco Master.

A decisão de tornar o documento público partiu de Mendonça após o Estadão detalhar o teor do conteúdo quando ainda estava sob sigilo.

Dentre os fatos apresentados no relatório, estão a participação direta de Moraes na edição de uma minuta de contrato de R$ 129 milhões entre o Master e o escritório de Viviane. Também constam mensagens em que Vorcaro pergunta, na antevéspera de sua prisão, se deveria sair do País e em que pede para o ministro interceder junto a Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Presidente do STF, o ministro Edson Fachin publicou despacho em que pediu manifestações a Moraes, Mendonça, PF e Procuradoria-Geral da República (PGR) no prazo de cinco dias.

Mendonça pediu a Fachin que o plenário decida qual ação tomar à luz dos fatos constantes no relatório.





Fonte: Estadão
Data: 05/09/2026